SEGUNDA
PARTE.
CAPÍTULO XIV.
DOS
MÉDIUNS
171. A faculdade de ver os
Espíritos pode, sem dúvida, desenvolver- se, mas é uma das de que convém
esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar, em não se querendo ser
joguete da própria imaginação. Quando o gérmen de uma faculdade existe, ela se
manifesta de si mesma. Em princípio, devemos contentar-nos com as que Deus nos outorgou,
sem procurarmos o impossível, por isso que, pretendendo ter muito, corremos o
risco de perder o que possuímos.
Quando dissemos serem freqüentes os casos de aparições espontâneas
(no 107), não quisemos dizer que são muito comuns. Quanto aos médiuns videntes,
propriamente ditos, ainda são mais raros e há muito que desconfiar dos que se
inculcam possuidores dessa faculdade. É prudente não se lhes dar crédito, senão
diante de provas positivas.
Não aludimos sequer aos que se dão à ilusão ridícula de ver os
Espíritos glóbulos, que descrevemos no no 108; falamos apenas dos que dizem ver
os Espíritos de modo racional. É fora de dúvida que algumas pessoas podem
enganar-se de boa-fé, porém, outras podem também simular esta faculdade por
amor-próprio, ou por interesse. Neste caso, é preciso, muito especialmente,
levarem conta o caráter, a moralidade e a sinceridade habituais; todavia, nas
particularidades, sobretudo, é que se encontram meios de mais segura
verificação, porquanto algumas há que não podem deixar suspeita, como, por
exemplo, a exatidão no retratar Espíritos que o médium jamais conheceu quando
encarnados. Pertence a esta categoria o fato seguinte:
Uma senhora, viúva, cujo marido se comunica freqüentemente com
ela, estava certa vez em companhia de um médium vidente, que não a conhecia,
como não lhe conhecia
a
família. Disse-lhe o médium, em dado momento: — Vejo um Espírito perto da
senhora. — Ah! disse esta por sua vez: É com certeza meu marido, que quase
nunca me deixa. — Não, respondeu o médium, é uma mulher de certa idade; está
penteada de modo singular; traz um bandó branco sobre a fronte.
Por essa particularidade e outros detalhes descritos, a senhora
reconheceu, sem haver possibilidade de engano, sua avó, em quem naquele
instante absolutamente não pensava. Se o médium houvesse querido simular a
faculdade, fácil lhe fora acompanhar o pensamento da dama. Entretanto, em vez
do marido, com quem ela se achava preocupada, ele vê uma mulher, com uma
particularidade no penteado, da qual coisa alguma lhe podia dar idéia. Este
fato prova também que a vidência, no médium, não era reflexo de qualquer
pensamento estranho. (Veja-se o no 102.)
Fonte, “Livro dos Médiuns“, Allan Kardec, da 18º. edição, abril de 1991, do
Instituto de Difusão Espírita de Araras, SP.

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